Canção de acalanto para um Êre insólito nos campos do Senhor. O futebol a Palo Seco parte II

Por Marcelo Mendez

Quando criei o blog CANELA DE FERRO em 2008 a ideia era dar ao futebol, tudo que dele vinha sendo sistematicamente tirado. Trazer à tona, um período de ouro que existiu não apenas dentro de campo mas, sem nenhum medo de afirmar, também dentro das redações de jornais.

Afinal de contas, o Brasil já teve entre suas letras ludopédicas gente muito mais séria e brilhante do que esse reles escriba que vos relata essas letras; Nelson Rodrigues, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Eduardo Galeano, Sandro Moreira, Armando Nogueira... Eu aprendi com os grandes.

Também foi com grande prazer que aceitei o convite do meu amigo Claudio Cox para trazer a coluna aqui para o Pastilhas Coloridas, do Walter Venturini para leva-la para Jornal ABCD Maior e para mais onde chegar, ótimo trabalhar com Vinicius Alves que é uma das ótimas pessoas que tenho a alegria de conviver quer dizer. Tudo é um grande prazer.

Escreve-la é um dos grandes baratos que tenho nessa vida nova que venho levando. Tudo ta ótimo, ta tudo certo e talvez eu devesse seguir assim, cabotinamente sem me preocupar com muita coisa. Seria muito mais cômodo para mim, muito mais tranquilo profissionalmente fazer o jogo dos burocratas, da patronagem, do padrão comum da maioria que se impõe pelas cifras, pelas cotas publicitárias e pela tirania do poder. Infelizmente não sou mais menino e bem sei que esses, por mais que eu e outros poucos dignos lutemos contra, seguirão dando as cartas. E ae vem a pergunta da minha mulher, dos amigos, da minha mãe Dona Claudete e do Zé Bode, amigo de longa data do Parque Novo Oratório: “Porque toda essa inquietação, homem?” - Simples...

Porque eu sou o estado mais puro e lírico de um coração em fúria. Sem essa inquietação não vivo.

Movido por ela, resolvi aqui abordar um tema recorrente ao longo dos últimos dias dentro da seara futeboleira. Ronaldinho Gaucho, seus amores e seus horrores. Vamos então aos fatos.

Amigo leitor que me acompanha aqui sabe muito do que penso sobre o Dentuço que um dia foi genial. Por motivos TÉCNICOS eu não o contrataria para um clube que eu, hipoteticamente dirigisse. Vejo o grande camisa 10 de outros tempos em uma descendente, não entendo que ele hoje reúna em si, forças para mudar esse quadro. O porque ele não tem mais essa força, talvez seja o assunto mais pungente a ser abordado aqui. E isso vai muito além de futebol.

A crônica futeboleira do século XXI vive um processo pleno de emburrecimento e obviedade onde não há o menor espaço para nada de lúdico, para absolutamente o menor resquício de encanto, na cobertura de um esporte que se notabilizou no Brasil justamente por conta dessas coisas todas que hoje são vistas pelos cretinos fundamentais como “Supérfluo”.

As redações de jornais (que hoje parecem aquelas agencias de publicidade dos anos 80...) inventaram em suas novas prensas digitais o tal “Padrão Jornalístico” que nada mais é do que uma balela, criada para autoproteção dos idiotas, incautos e previsíveis otários que não ousam, uns tristes que padecem 29 dias e respiram um pouquinho quando pegam um contracheque no final do mês. São os novos miseráveis de Hugo... Viciados em manter empregos que os mata dia a dia.

Dessa fábrica de corações duros, nasce a caretagem do mal. Uns pobres diabos incapazes de ter alguma sensibilidade, que não conseguem entender que a vida não é algo linear, que infelizmente não temos um Jean Claude Carriere para escreve-la. Faz-se necessário vive-la de maneira plena, encarando tudo sem medo. Mas morrendo de medo, esses formadores de opinião preferem endurecer tudo, tentando por cabresto no destino. E ae se da toda digressão que vem contaminando os comportamentos pobres todos. No futebol não é diferente...

Seguidores dessa premissa toda acima descrita, os dirigentes e técnicos de futebol se recusam a ter qualquer arremedo de sensibilidade. São “sérios”. Não querem perder tempo para tratar o homem, para saber o que o sujeito passa, o porque ele não tem mais a menor paciência para treinar, jogar, correr, responder perguntas idiotas nas pífias coletivas, porque o sujeito não tem o menor saco para ficar ouvindo os “pofexô” e suas táticas burras, não!

“Queremos rendimento!” - E pouco importa o que se faz para te-lo.

No caso de Ronaldinho Gaucho, ele nunca mentiu para ninguém. Quando encantou o mundo todo entre 2003 e 2006 pelo Barcelona, o dentuço barbarizava na noite da Catalunha. A cidade de Barcelona sabia, a Espanha sabia, a Catalunha sabia, Dona Nena Macumbeira aqui do PNO sabia, Stevie Wonder via tudo... TODO MUNDO SABIA DAS ATIVIDADES NOTURNAS DE RONALDINHO GAUCHO.

Mas ninguém ligava porque ele dava resultado em campo. Da mesma forma, aconteceu no Flamengo quando ele deu um mequetrefe titulo carioca, e uma vaga para Libertadores da América. Ronaldinho seguiu arrebentando na noite e ninguém disse nada. Bastou as coisas não darem certo tanto no Barça quanto no Flamengo, para tudo vir a tona. No Flamengo era o cristo; A presidente incompetente queima diretor, da calote em salário de jogador e de funcionário da gávea, o técnico erra tudo e a culpa era do Dentuço. Ae vem a questão que quero abordar aqui....

Então não importa o quanto sangra, desde que o que se derrame possa ser usado? É assim o futebol? Quer dizer que para o futebol pouco importa a quantas anda o homem, o ser humano, a pessoa? “Desde que ele me de três pontos na tabela, pode encher a cara e ta tudo certo...” - Como assim??

O senhor comentarista austero, sério, correto, como vai querer cobrar rendimento do atleta sem querer saber do homem, da pessoa, do ser humano? Ta tudo errado!

Diante do ser humano, dane-se o jogo! Que se foda os três pontos na tabela, lasque-se os títulos! O verdadeiro torcedor de futebol ta pouco se fudendo para os “resultados” pura e simplesmente. Quem gosta de futebol entende todos os meandros que tornam esse esporte algo maravilhoso. E só é maravilhoso porque é recheado de personagens como Ronaldinho Gaucho. Claro que ele tem responsabilidade nisso tudo. Mas como falei, da parte dele, nunca ouve mentira. Todo mundo sabia dos problemas que ele tinha e quem o contratou jamais se preocupou em ajuda-lo a resolver esses problemas. Desde que as cifras aumentem, que se foda ele. É assim que pensam os pífios dirigentes e os hipócritas jornalistas. É triste...

Triste isso tudo porque eu sei que nada vai mudar; Ronaldinho seguirá agora no Atlético, com todos seus amores, em breve com seus horrores e ninguém se preocupará com nada desde que o time vá bem na tabela. Bom... Como eu sou da antiga, não vou compactuar com nada disso, não vou torcer para o pior, não seguirei de boia no pescoço junto com a maioria reverberante do óbvio ululante. Boa Sorte a Ronaldinho Gaucho.

Afinal, eu vejo a beleza do mundo nos homens que conseguiram chegar no limite...

Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.

1 comentários:

Rafa disse...

Canela de Ferro é a melhor coluna de futebol que já li, simplesmente por não seguir o tal padrão jornalistico, que coisa chata. Parabens Marcelo!

Abraços