Álbuns Clássicos - Feito em Casa (Antonio Adolfo/1977)

Por Marcelo Mendez...

Vira e mexe eu me pego aqui falando da Banca Rebel Music de Santo André. Um Sebo, uma banca mesmo... Dos meus amigos Tonho e Chico. E se eu escreve 500 laudas falando da importância desse espaço seria pouco!

Em uma época em que não existia informação, grana e muito menos conhecimento, esses dois irmão eram um oásis no meio do oceano de nada que era Santo André. Jamais sonegaram nada; Paciência, educação, amizade, gentileza, compreensão e informação.

Assim como eu que cheguei por lá em 1991, outros tantos caras, uma geração toda se formou ali com esses caras que conheciam absolutamente tudo de musica. Eu passava tardes inteiras ali falando com eles e nessas prosas sempre aparecia uma parada nova. Numa dessas apareceu o disco que será comentado aqui em ÁLBUNS CLÁSSICOS:

Senhouras e senhoures, com vocês FEITO EM CASA de 1977, por Antonio Adolfo...

Era um dia de semana e cheguei na banca meio que hipnotizado por um som quebrado, suingadão que Tonho ouvia ainda na velha pickup:

“Porra que quebradeira fantástica! Que é isso ae Toinho??”

Ele deu aquele riso sábio e mandou:

“Isso é um musico carioca dos anos 60 e 70, Marcelo. Chama Antonio Adolfo...”

“Hummm... muito foda Tonho! Das antiga né?”

“É então...”

E então começava mais uma aula. Mas eu vou ser eternamente grato ao Tonho... Foi ele que me ensinou:

Adolfo com Tibério Gaspar (1969)
Antonio Adolfo é de fina estirpe; Sua mãe era violinista da chiquetésima Orquestra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Por lá, ainda menino começa a dar suas primeiras sapatadas musicais. E em meio a fagotes, violinos, violoncelos e maestros o menino se apaixonou pelo piano. Subiu em cima dele e aprendeu demais, tanto que aos 16 anos já era solicitado musico do fechado clube da bossa nova. Por lá, pegou uns contatos e passa a tocar em umas boates de jazz de Ipanema e cercanias. Ae surge o primeiro grande contato...

Apaixonado pelo virtuosismo do menino, Vinicius de Moraes o convida para montar um grupo, o Trio 3-D para participar do musical “Pobre Menina Rica” de 1964. No meio disso tudo em 1968 arrebenta a boca do burro com o sucessão “Sá Marina” além de conhecer Tibério Gaspar e passa a trocar ideias com o parceiro que vão acabar em “Juliana”, musica a ser interpretada por outro grupo seu que da muito certo, a psicodélica Brazuca. Eis que chega o segundo grande contato:

A partir de 1969 a Deusa Maysa passa a lhe dar grande força ao chama-lo para assinar os arranjos de seu disco homônimo daquele mesmo ano, o sensacional Maysa onde ele emplaca quatro canções cantadas pela Diva. No ano seguinte a consagração ao lado do parceiro Tibério Gaspar:

Na fase nacional do V Festival Internacional da Canção, Tony Tornado bota o maracanãzinho abaixo ao som de BR-3. Um baita soul, com apoio do Trio Esperança nos backing vocals. Vitória aclamadora! Pinta uma grana e então Tibério decide picar a mula para os EUA, onde estuda jazz, toca e pensa em um projeto seu. Quando volta em 1977 chega a hora de meter a mão na massa.

Com o tempo vivido nos EUA Antonio passa a ter uma nova visão da indústria fonográfica, do mundo do espetáculo e do negócio da música, Se grila muito com o esquemão das gravadoras e saca que seu projeto de muita qualidade, muito pessoal e muito caprichado não terá espaço no varejão musical das majors. Então decide ter uma ideia ousadíssima para época:

Antônio Adolfo (1977)
Lançar o seu disco de maneira independente. Veja bem, caro leitor; Estou falando em lançar um disco independente no Brasil de 1977!! Pois bem...

Munido de um espírito empreendedor, Antonio corre atrás de um estúdio que será o Estúdio de Gravações da Arquidiocese do Rio De Janeiro. Preço bão, pertinho, os padres todos bonzinhos... Foi lá mesmo! Ae monta a banda.

MA QUE PUUUUUUUUTAAAAAAAAA BANDA!

Rubinho – bateria, Jamil Joanes e Luizão Maia – baixo, Luiz Claudio Ramos – guitarra, Márcio Montarroyoios – trompete, Oberdan Magalhães – sax, Danilo Caymmi e Franklin – flauta, Suzana, Luna e Marcio lott – vocais, Ariovaldo – percussão e as cantoras Joyce e Malú.

Só feras! Ae num tem como dar errado.

O disco é um espetáculo, com músicas divinas, como a faixa titulo FEITO EM CASA que já abre o disco botando todo mundo pra levantar da cadeira. Um samba soul sacolejante e irresistível. Passa pelo doce de voz de Joyce em ACALANTO, arrebenta com o solo de Antonio Adolfo em CHICKOTE, uma homenagem dele ao amigo Chick Corea, um arrebento de inovações com metais em ataques intermitentes e lindos. Um disco perfeito. Ae veio a parte suada da coisa...

Como já previsto pelo Maestro Antonio, ninguém, nenhuma radio quis tocar a parada. Mas sem crise; O Homem pegou as bolachas, o talão de notas fiscais e caiu em campo para negociar diretamente seu produto com lojistas, com as rádios mais descoladas, com produtores, fonogramas, direitos autorais e tudo mais. Não da pra dizer que foi um sucesso de vendas e tudo mais e nem é o mais importante.

Antonio Adolfo conseguiu vender 3000 mil cópias. Se fosse numa major da época provavelmente, teria a mesma vendagem e não ganharia um puto. Com feito em casa lançado pelo seu selo oArtezanal, o maestro conseguiu pagar todo mundo, divulgar seu trabalho, fazer uma rapa de shows e ainda ganhar uns caraminguá justos para comprar um fusquinha decente. O resto é história...

FEITO EM CASA é um disco raro, disputado a tapa, porrada, beliscão e rabo de arraia pelo mundo afora. Em um sebo de Londres, ou em uma feira em Piccadily Circus ele não custa menos de 100 euros. Azar de quem ta por lá e não tem a Banca do Tonho...

Hoje, vamos deixar com vocês a musica FEITO EM CASA para dar um gostinho da cousa. O presente ta nas capas ae, quem quiser só clicar nelas.

No player ae embaixo, só tascar o player e perigas ver. Bora lá!


Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.