Azeite e Alecrim - Batatas Coradas

Por Penélope Martins

Pertence ao ensaio "através do espelho" - impressões
 do inverso / Foto: penélope Martins
Irresistíveis as maneiras de Adélia. Um caleidoscópio de risada aberta, mãos gesticulosas e cílios pintados a rodopiar numa certa objeção sobre o sentido das coisas. Ombros fortes e cintura fina delineada na amplidão dos quadris.

Adélia tinha uma vida atribulada pelas agendas alheias, ainda de quebra conseguia tempo para suas experiências fotográficas. Foi assim que conheceu Bertrand, professor do curso de revelação, algo que há muito tempo planejava fazer.

Intrigaram-se, desde o primeiro dia.

Ao final de uma das aulas, Bertrand não resistiu e se dirigiu à aluna atrapalhada entre celular, bolsa, óculos, batons, bloco de anotações.

- Você se interessa por outro tipo de arte, Adélia?

-Bom, na verdade me interesso por tudo ou quase tudo; respondeu Adélia perseguindo um pequenino estojo que já caia no chão - sou dispersa na minha curiosidade.

Um risinho íntimo surgiu entre os dois. O primeiro afago da cumplicidade que ambos vinham nutrindo, semana após semana.

- E qual outra arte que você pratica? , continuou Bertrand.

- Batatas. , respondeu Adélia sorrindo.

- Como assim? , apertou os óculos e franziu a testa.

- Sou dedicada em lidar com a culinária das batatas. Hoje mesmo deitei seis batatas numa longa forma prensando galhos de alecrim e sal grosso... , e o gesto de Adélia desenhou no ar todo o percurso de seus experimentos culinários.

- Uma bela fotografia. , disse ele.

- Sim, é isso. Justamente isso. As batatas filtram luzes do amarelo opaco, quase desmaiado, para o dourado intenso... E eu estou lá registrando todas as nuances, vendo avermelhar pouco a pouco.

-Mais alguma coisa nas batatas? , aproximou-se ainda mais Bertrand.

- Azeite de oliva e só. Corte-as ao meio e prense com cada metade um galho de alecrim salpicado com sal grosso.
Depois regue com abundância e leve ao forno para assar até que trinquem douradas.

Sorriu Bertrand, tirou os óculos esfregando suavemente as pálpebras para olhar os olhos de Adélia.

- Não era bem a receita das suas batatas, mas sim algo sobre o objeto em si.

- Ah, sim - respondia um tanto aérea - batatas me lembram panturrilhas e estas, por sua vez, me levam aos tornozelos e os tornozelos ao “em torno de” e o entorno gera uma confusa dança...

Divagaram os olhos dela.

- Hummm, les chevilles, eu entendo; disse Bertrand dirigindo o olhar para os tornozelos de Adélia, ambos tatuados com letras miúdas - posso lê-los?

- Oh, sim, claro.

Adélia largou seus pertences sobre a mesa e colocou o pé direito sobre o assento da cadeira. Bertrand se abaixou e apanhou o tornozelo. Ao fazê-lo, Bertrand sentiu o pavor congelar sua espinha; por um segundo suspendeu a respiração e quase conseguiu evitar o desejo.

Incendiado ardia o peito de Bertrand, as mãos apoiadas na panturrilha de Adélia e as narinas embebidas em patchouli.
“faça-me teu amor e no amor faça a mim”

- Isso é tão desesperador, Adélia. Como pode conviver com algo tão intransponível? , agonizaram as palavras de Bertrand.

- Interessam-me as nuances, da mesma forma que as batatas coram desde uma cor morta...
Tomou para si o joelho dela e abraçou sua perna contra o peito desejando amá-la intensamente, depois Bertrand suplicou:

- Posso ter o outro?

Adélia trocou o pé apoiado sobre o assento da cadeira, dando-lhe o esquerdo.

“devolvo-te a serva, a meretriz, a amada”

Da mesma forma, Bertrand tocou aquele tornozelo respeitando a divindade do oráculo de Krishna, cujo perfume era o mesmo desde os mais remotos dias da criação. Embriagado pela exuberância de Adélia, também pelo aroma patchouli, Bertrand se colocou de joelhos diante dela e beijou o entorno das palavras, enternecendo seus lábios com o calor daquela pele.

Adélia acariciou a cabeça de Bertrand, afastou suavemente o tornozelo e se sentou diante dele para recebê-lo num abraço capaz de fazer compreender a complexidade de ambos.

Depois ergueu o corpo, reuniu os objetos apartados e saiu da sala deixando Bertrand com olhos fixos em suas panturrilhas, cintilantes de loção com pontos luminosos. As mãos dele transbordavam a essência do perfume dela e jamais deixariam de assim estar.

Penélope Martins é a alquimista do blog Cartas de Amor, escreve para o Jornal ABCD Maior e a partir de agora, colaboradora do Pastilhas Coloridas com a coluna Azeite e Alecrim.

7 comentários:

  1. Que sabores são esses, que se escondem e se revelam entre duas pessoas apaixonadas? Segredos que se revelam a os poucos, no dia-a-dia, entre olhares furtivos e carícias roubadas...
    Parabéns Penélope pelos sabores compartilhados!

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  2. Desde a primeira coluna, textos e receitas deliciosos... E cada vez melhores!
    Parabéns, minha amiga!

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  3. Que linda é sua inspiração culinária, poética, sensual. Dá água na boca em todos os sentidos, culinário, poético, sensual.
    Amanhã mesmo farei essas batatas e quem sabe não encontro um Bertrand pelo caminho...rsrs
    Beijos Penélope!

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  4. É mesmo extraordinária a escrita da Penélope. Quem acompanha sabe disso! É sempre bom embriagar-se pelo "aroma patchouli" da Azeite e Alecrim.

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  5. e vocês todos misturados nos ingredientes que fervem palavras na minha cabeça. beijos em todos, um por um, com meu obrigada sem fim!

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  6. Lindo!
    Erotismo é isso, uma fina fumaça que achamos que prendemos entre os dedos.

    <3

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  7. Tati, minha querida, erotismo é explorar a si mesmo sem medo de encontrar outros. Felicidade tê-la aqui! Beijo

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