A transa macumbística ludopédica de Torquato Neto e um blues na encruzilhada do futebol de volantes inglórios...

Por Marcelo Mendez

Em meio às festividades de momo cá estamos novamente para tratar de nosso esporte maior, mais popular e tão significativo para o Brasil quanto é o Carnaval. Futebol no Brasil é ao sol e a sombra como disse mestre Eduardo Galeano e, ao frio, a chuva e a tudo. Por isso é lindo:

É pleno.

Pensando, portanto nessa necessidade visceral que o ser humano tem de viver plenamente seus amores, suas paixões e suas emoções, lembrei de um baita cara, mestre das letras que muito me inspirou para além das crônicas, para além das referencias todas...

Torquato Neto é meu herói.

Poeta, Cronista, Jornalista, Compositor e Gênio, o mestre primava por não ser óbvio, simplista e comunzão. Foi na veia quando falou do papel do artista com relação ao mundo, as coisas do mundo dizendo o seguinte:

"Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela (…). Quem não se arrisca não pode berrar."

Tai a questão nossa nesse futebol bundão que vem sendo apresentado; A ausência do risco em detrimento da manutenção de um estabilishment da Merda Plena, do óbvio da pobreza.

Amigo leitor que me acompanha viu o que aconteceu na última quarta-feira no jogo Flamengo x Lanus, pela Libertadores da América. O simpático Joel Santana, homem bom, gente boa, bonachão paternalista, mas do bem, escalou um meio campo para o mengão jogar la com 4 volantes. São 4 homens de marcação para jogar contra um time que sofre no campeonato Argentino justamente pela fragilidade de sua zaga, da limitação e lerdeza de seus zagueiros que sempre abrem o bico quando atacados.

Ainda na semana passada, na sexta-feira, Palmeiras x Guaratinguetá se enfrentaram pelo Paulista com meu verde suando para jogar contra um time absurdamente fraco, porque não tinha como chegar na área do time do interior com facilidade. Faltava o passe correto e esse não podia ser feito por Marcio Araujo, Patrick e afins. E em um jogo para golear, o meu verde venceu por burocráticos 3x2, chato demais.

Quando o Flamengão terminou o jogo num 1x1 mequetréfe, todo mundo bradou; “Para uma estreia de libertadores ta ótimo esse empate fora de casa”. Ótimo?!

O que ta acontecendo com o futebol brasileiro, afinal?? Que comiseração maldita é essa??

Quando o Barcelona deu um cacete no Santos, o melhor clube do Brasil, dando no time de Neymar um passeio em Yokohama, tava ali a chance do futebol brasileiro iniciar uma grande reflexão a partir de todos os seus setores acerca do que estava rolando afinal. O Barça teve 76% de posse de bola, meteu 4 e poderia ter feito, 8 ou 9 ou 16x0 no Santos, deu um baile de bola e o time da Vila Belmiro não viu a Bola. Naquele jogo, Xavi Hernandez meio campista do Barça deu 104 passes no jogo e errou... Nenhum!

Enquanto o Brasil, país de lendários camisas 5 como Zito, Falcão, Bauer, Danilo Alvin, Clodoaldo, Dino Sani, Andrade e que hoje tem brucutus como Ralph, Jucilei, Willians e quetais, o Barça mantém por lá o que há de mais brasileiro em se tratando de futebol; a excelência do passe, da assistência, do toque de bola. No Brasil de hoje, onde a bola passa o tempo todo pela cabeça da área, um jogador como Ralph do Corinthians, tem uma média de acertos de.. 5 passes em 90 minutos.

!!!!!!!

Amigo leitor é alarmante o quadro.

Para o Flamengo vencer o Lanus, bastava que seu técnico se desse ao trabalho de procurar se informar. Assim como o cronista faz para realizar bem seu trabalho, como o Dentista faz, como o engenheiro, o médico, o padeiro e o gari; Para o profissional ser bem sucedido em seu trabalho, se faz necessário um preparo, um interesse de quem presta trabalho e recebe por isso. Agora, se o elemento munido de uma arrogância idiota não quer fazer assim, eu que sou jornalista vou ensinar como ele deve fazer o trabalho dele??

Não!

O papel do cronista, do jornalista não é esse.

O cidadão que milita do lado de cá tem que botar na cabeça de uma vez por todas que o seu papel nessa estrutura não é o de solucionar os problemas de técnicos encostados e datados. Não é esse, de aceitar qualquer porcaria que se em campo como algo que “Está muito bom dentro da realidade atual...” não!

A maior arma do idiota convicto é o conformismo.

Cabe a nós que somos pagos para fazer nosso trabalho aqui, gerar reflexão, causar algo que faça com que nosso futebol saia desse estado letárgico o qual se encontra nos dias de hoje. Temos que fazer o leitor entender que o direito de torcer é inalienável sim, mas, que essa torcida não pode ser feita assim, com qualquer modelo burocrata vagabundo e canalha. Não há nada de mais lúdico no exercício de torcer que o encanto. Então amigo torcedor, lute para ter esse encanto de volta nos campos de futebol.

O meu mestre Torquato Neto escreveu uma vez quando perguntado onde estavam as novidades que “O novo está na vida que você não quer viver, esta na sacada da janela da sua casa, a qual você não quer olhar”. Então é isso – Vá até a sacada da janela de sua casa e veja o novo. E aí é com vocês:

Da janela da sua casa pode haver um Trio Elétrico tocando musica ruim ou um velho negão harpejando um blues.

A escolha é sua...

Marcelo Mendez é colaborador do Pastilhas Coloridas, filho da Dona Claudete, escritor e um dos responsáveis pelo cineblog Bandidos do Cine Xangai.

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