Por Elsa Villon
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| Marcelino freire por Ramon Muniz |
Em meados de setembro de 2011, esta proto-jornalista que vos fala precisava de uma pauta especial para o jornal da Universidade. Sem ideias, eis que um amigo sugeriu: “Por que você não entrevista o Marcelino Freire?”. Eu, no ápice da minha perplexidade, indaguei como e se teria culhões jornalísticos suficientes para tal tarefa. Afinal, o premiado autor foi merecidamente honrado com um Jabuti. E o fato de ser fã de suas obras também me torna uma tiete, quase uma groupie literária.
“Relaxa, ele é a pessoa mais doce que eu conheço”, citou na ocasião. Já sem ideias do que produzir, aceitei a sugestão e solicitei o contato do Marcelino. E não é que ele tinha razão? O idealizador da Balada Literária é sim uma das pessoas mais doces e humildes que conheço, dentro de todo o seu talento.
A minha matéria era um especial sobre bibliotecas móveis e iniciativas alternativas de leitura e, por consequência, a Balada Literária, que chegou a sua sexta edição em 2011. Por desventuras da triste realidade jornalística, a matéria não foi publicada (vésperas antes de entregá-la, a bicicloteca foi roubada, descontextualizando toda a minha pesquisa – minha pauta foi literalmente roubada). Mas satisfeitíssima com o bate-papo, apresento-lhes a simpatia de Marcelino Freire, que além de me conceder a entrevista, pagou-me uma água com gás. Generoso ainda por cima.
Marcelino Freire é escritor, filho caçula de nove irmãos de uma família de retirantes de Pernambuco, nascido em Sertânia, ainda no Estado, em 1967. Morou em Recife e a partir de 91, adotou São Paulo.
Entre algumas de suas obras, estão “Contos Negreiros” (Editora Record), que lhe rendeu o Prêmio Jabuti em 2006; “Angu de Sangue” e a idealização e organização da antologia “Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século” (ambos pela Ateliê Editorial) e em 2011 lançou o livro de contos “Amar é um Crime”. Confira mais de seus trabalhos no blog.
Freire ressaltou algumas dificuldades que os amantes da literatura podem enfrentar em sua trajetória e conta que “nenhum pai espera ter um filho poeta, mas sim engenheiros, médicos e advogados”. Bem, se o tomarmos como exemplo, acho que já não é bem assim...
Sem mais para o momento, confiram abaixo como foi esse bate-papo...
Pastilhas Coloridas – De onde surgiu a ideia que originou a “Balada Literária”?
Marcelino Freire – Começou com a minha participação na FLIP (Feira Literária de Paraty), quando conversei com Samuel Seibel, dono da Livraria da Vila. Prôpus a ideia de trazer essa iniciativa da feira literária para São Paulo. Escolhi a Vila Madalena por ter bastante destaque com bares e restaurantes e por morador há 15 anos. Aqui há vários pontos para que a literatura circule, pois ela não precisa ser enclausurada, para poucos. Deve sair das bibliotecas, invadir os bares. Literatura tem que vir com provolone, com fritas. Deve estar associada ao prazer, não a algo burocrático.
PC – E qual a importância desse tipo de evento?
MF – É muito importante para ter-se o contato com os leitores, formar novos leitores, encontrar os já conhecidos e falar sobre o seu trabalho diretamente com o público. A Balada Literária não tem restrições, nem ingresso, nem sistema de segurança para barrar ninguém.
A Lygia Fagundes Telles não deve ter um sistema de seguranças, deve ter proximidade com seus leitores.
As pessoas estão muito presas aos conceitos de comprar ingresso, de ter lugar nas mesas. Na Balada Literária não é assim, não tem nada disso. As pessoas sentam no chão, sem essa neurose por ser um evento.
PC – Como funciona a organização e planejamento?
MF – Um evento desses é como um jogo de xadrez. E eu não conto com apoio do governo, de leis de incentivo, porque demora muito. É se reunir a outras pessoas e seguir em frente com a ideia.
PC – As pessoas, hoje, estão lendo mais, ainda que de outras maneiras?
MF – Acho que tem sim, muita gente lendo, até por conta da internet, nunca se leu tanto como agora. E principalmente, os eventos literários, como a Jornada Literária de Passo Fundo, que ocorre há 30 anos, mantêm leitores antigos e atrai novos.
PC – E como você se apaixonou pela leitura e pela escrita?
MF – A minha mãe sempre quis que eu e meus irmãos estudássemos. Ela sabia que eu gostava e comprava livros para mim, achava que eu iria ser professor. Soube que queria ser poeta aos nove anos, com o poema “O Bicho”, de Manuel Bandeira.
PC – E ela te apoiava?
MF – Dentro das limitações, ela incentivava sim. Nós éramos nove irmãos e cada filho tinha uma ocupação lá em casa. Eu, o caçula, era quem lia a bíblia, as bulas de remédio, escrevia as cartas e cartões de casa.
PC – O que o manteve dentro da escrita, da literatura e poesia?
MF – Por meio da escrita, eu me vingo das injustiças que vemos, como os ataques homofóbicos, por exemplo. Não tenho a coragem de sair e protestar como esses monges, que queimam seu próprio corpo. Mas a minha vontade quando vejo algo do tipo é de jogar querosene em mim mesmo, acender um fósforo e sair como uma tocha humana pela Avenida Paulista.
PC – É possível sobreviver da escrita do Brasil?
MF – Tenho conseguido, há cinco anos quase, viver direta e indiretamente da literatura, com os livros, eventos, cursos, direitos autorais e palestras. Mas antes de tudo, o poeta é um teimoso.
PC – Como você definiria a leitura na formação individual das pessoas?
MF – Ela nos conduz, nos torna cidadãos e nos desperta para o mundo à nossa volta. Não só a leitura, mas toda a arte em si. Nós precisamos dos artistas para nos mostrar o que não conseguimos ver. O grande trabalho da literatura, da arte, é tirar-nos da nossa “zona de conforto”. Confortável tem que ser a cama, não o livro, a obra de arte.
PC – Quais artistas que motivaram?
MF – João Cabral de Mello Neto e Manuel Bandeira fizeram isso muito bem, mas a Grande Arte me perturba. Van Gogh me desorienta, me desconcerta de uma maneira positiva.
Elsa Villon é colaboradora do Pastilhas Coloridas, jornalista e fotógrafa viciada em café, cinéfila, adora Beatles e cheiro de pão saindo do forno. Twitter: @elsavillon















elsazzzzzzzzzzZzZzzzzzzzzzz
ResponderExcluirAnônimo que não tem nada de bom a acrescentar - a gente vê por aqui!
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