Entrevista: Kiko Dinucci

Por Ana Mesquita

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Confesso a vocês, leitores do Pastilhas, que não conhecia o som de Kiko Dinucci, nem mesmo sua trajetória no mundo da música. Já tinha ouvido um som dele, um vídeo enviado pelo Daniel Gralha dizendo “pira no som” ou algo do tipo, no começo desse ano. Fui pirar mesmo enquanto elaborava esse roteiro de perguntas pra fazer pro Kiko. Tanta coisa bacana assaltou meus sentidos ao ouvir o disco. As vozes de Fabiana Cozza e Marcos Pretto, os ritmos brasileiros (ciranda baião, samba), as semelhanças com o Nego Dito.

Kiko Dinucci se apresenta no próximo sábado, dia 18 de dezembro, no projeto Conexão Africa, que trará ao palco do Sesc Santo André, além de Kiko. Maquinado, M. Takara, Elo da Corrente e ele, o príncipe do afrobeat, Femi Kuti.

Confira abaixo entrevista exclusiva que Kiko concedeu ao Pastilhas:

Pastilhas: Conta porque você decidiu ser músico? Desde quando? 

Kiko Dinucci: Comecei em 90 quando montei bandas de rock em Guarulhos, mas não tinha pretensão, não ganhava nenhum centavo, só comecei a trabalhar com música pra valer em 2005. Profissionalmente conto a partir daí. Na infância minha mãe ouvia Beth Carvalho, Benito de Paula, Edith Veiga. Já meu pai ouvia Tião Carreiro e Pardinho, Tonico e Tinoco, etc. Cresci ouvindo essas coisas. Mais tarde sofri influência da minha irmã que curtia rock, depois foi buscando sozinho, gravando fitinhas com o som das rádios, descobrindo coisas.

Pastilhas: A verve sambista é forte no "Na boca dos outros". Além do samba, quais suas outras influências?

Kiko Dinucci: O samba pra mim é influente como estrutura inicial, me considero livre pra tocar qualquer estilo, funk, música sertaneja, improviso livre, punk, não me prendo a nenhum rótulo ou estilo, todos os meus discos tem sambas, assim como outros tantos estilos. Uma vez fui a uma loja e meus cds estavam espalhados em diversos setores, mpb, rock, regional, fiquei feliz em não ver apenas em uma prateleira.

Pastilhas: "Na boca dos outros" é seu quarto disco solo. Além do trabalho solo quais seus outros projetos musicais?

Kiko Dinucci: Na Boca dos Outros embora leve o nome de Kiko Dinucci, não é um disco solo, porque não canto nenhuma música, todos os discos que lancei dependem das parcerias, Padê com Juçara Marçal, Bando Afromacarrônico, Duo Moviola com Douglas Germano e Na Boca dos Outros com uma penca de cantores, considero os discos autorais, mas não solo.

Pastilhas: Você canta nesse trabalho? Como vai ser o show? 

Kiko Dinucci: Não canto no disco, mas no show sim, não posso levar todos os cantores, é inviável, fiz poucos shows desse disco, dos mais de 150 shows que fiz nesse ano, somente 5 foram desse disco. Odeio fazer show de disco, isso é ultrapassado, coisa da época das gravadoras, faço sempre um show diferente do outro, com diversas formações e diversas versões, isso me dá liberdade e possibilidade de explorar novos caminhos de forma mais intensa.

Pastilhas: Você vê algum tipo de conexão do seu som com o trabalho do Femi Kuti e do pai dele, o Fela? 

Kiko Dinucci: Quando lancei o Pastiche Nagô com o Bando AfroMacarrônico as pessoas diziam que era uma mistura de afrobeat com afrosambas, não costumava ouvir nenhum desses dois estilos. Depois comecei a prestar atenção, mas a África é muito plural, enxergo o afrobeat como a releitura nigeriana do Funk norte-americano dos anos 70. Tenho influências de outros países africanos também, como Angola, Congo, Cabo Verde, Mali. Talvez o que mais me aproxima de Fela Kuti seja o fato que acreditamos nos mesmos deuses, a nossa religião é a mesma, yoruba, sofremos essa influência. Fela influenciou a música do mundo todo, até da norte-americana, fico sempre orgulhoso quando alguém enxerga essa influência na minha música e vai ser um sonho assistir o show de Femi.

Pastilhas: Vi que seu disco teve dinheiro do fundo de cultura de Guarulhos. O que isso significa para artistas independentes como você? 

Kiko Dinucci: Dos quatro discos que lancei, dois dependeram de incentivo estatal, vou lançar o próximo (Metá Metá) às próprias custas e tenho caminhado mais por esse caminho, costumo ganhar os meus trocados nos shows pequenos, organizados por mim ou por produtores parceiros (Desmonta/Circus). O incentivo estatal se tornou um vício em todas as artes, algumas são impossíveis de ser realizadas sem esse apoio, como o cinema. Mas tento trilhar um caminho mais independente. Tem dado certo.

Pastilhas: Você já tocou no ABC antes? O que espera do show no Sesc Santo André?

Kiko Dinucci: Nunca toquei em Santo André e creio que vou adorar, uma vez fui a essa unidade do Sesc assistir aos Racionais MCs e o público estava maravilhoso, muita molecada, espero que esteja mais ou menos do jeito que eu vi. Será uma honra tocar no ABC.

Pastilhas: O que você tem ouvido ultimamente?

Kiko Dinucci: Estou tentando me desprender um pouco da música norte-americana e começar a ouvir música do mundo. É uma descoberta ouvir sons novos aos ouvidos, música oriental, da Índia, Malásia, Japão, ou africanas de Gabão, Niger, Camarões, Mali, ou música latina, que sempre esteve ao nosso lado e nunca prestamos a devida atenção, me pergunto o que nós brasileiros conhecemos de Suriname, Martinica, Haiti? Esses lugares estão próximos de nós e nunca prestamos atenção. O mundo é muito grande e hoje em dia podemos ter acesso a música de qualquer país. Estou apaixonado pela música um artista baiano chamado
Bule-Bule, é minha descoberta mais recente, ele canta samba de roda, chula e diversos outros estilos, além de ser um grande improvisador de versos, um gênio. Ouço os meus contemporâneos também: Lurdez da Luz, Rodrigo Campos, Alessandra Leão, Siba, etc. Estou ansioso pra ouvir o disco novo do Criolo Doido também.

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